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Ministro da Economia do Brasil não se curvará à pressão política

Quando Paulo Guedes se tornou ministro da Economia do Brasil em janeiro, os investidores esperavam que fosse o ex-gerente de fundos, e não o presidente Jair Bolsonaro, dirigindo a nona maior economia do mundo.

Dez meses depois, Guedes e seus líderes de torcida estão verificando como o governo realmente funciona como Bolsonaro, o ex-capitão do Exército que uma vez declarou que não sabe nada sobre economia, lidera.

O presidente anulou várias propostas do ministro, privando efetivamente os mercados financeiros de sua querida. Bolsonaro ameaçou acabar com o limite dos gastos públicos – para o horror do ex-aluno de 70 anos da escola de economia de mercado livre da Universidade de Chicago. Ele também rejeitou a proposta de Guedes de simplificar o sistema tributário brasileiro.

Ainda assim, o ministro, que ameaçou deixar o cargo publicamente nos primeiros meses de seu mandato, agora diz que está na corrida a longo prazo. “Enquanto o presidente confiar em mim, eu estarei lá”, disse ele em entrevista em seu escritório em Brasília.

Membros de sua equipe dizem que ele se acostumou com o estilo do presidente e quer permanecer no cargo com o objetivo de seguir algumas das políticas pró-mercado que ele defende desde os anos 80. Isso inclui a reforma previdenciária aprovada nesta semana, o aumento da privatização e os gastos governamentais mais disciplinados para reduzir o “endividamento da bola de neve”.

“As taxas de juros caíram desde que chegamos e disseram que manteríamos o limite de gastos”, disse ele. “Dissemos o suficiente com os gastos públicos. Vamos reduzir impostos, reduzir custos de energia”.

Longa espera

“Ele esperou 30 anos por esse momento”, disse Fabricio Taschetto, sócio e diretor de investimentos da Ace Capital. “Desde a redemocratização, o Brasil implementou o oposto das políticas em que Paulo Guedes acredita. Agora é o momento de implementar suas idéias e ver o resultado”.

Enquanto os investidores estão impressionados com o progresso do governo em rever o sistema de pensões sobrecarregado do Brasil, eles estão começando a ficar ansiosos por resultados em outros lugares.

“Até agora, a agenda econômica avançou muito pouco além da reforma previdenciária. Esse é o maior problema”, disse Richard Back, chefe de estratégia política da XP Investimentos na América Latina.

A recuperação permanece anêmica e o desemprego está preso nos dois dígitos. Enquanto a economia deve acelerar o ritmo no próximo ano, os riscos são negativos, com o Fundo Monetário Internacional na semana passada cortando sua estimativa para o crescimento de 2020 para 2%, de 2,4% para 2%.

Mas Guedes diz que “não tem pressa”. O mais importante é que a economia brasileira cresça de maneira saudável, acrescentou, dizendo que o presidente aprecia sua posição, apesar da pressão para mostrar resultados.

“Todos os políticos estão com pressa”, disse ele. “O presidente entende que se estivermos com pressa agora, podemos acabar como a Argentina”. O vizinho do sul do Brasil está passando por mais uma crise financeira depois do programa de reformas do presidente Mauricio Macri.

Pressão crescente

Mas o que os investidores temem mais do que tudo é a partida repentina de Guedes. Alberto Ramos, economista-chefe da América Latina no Goldman Sachs Group Inc., o chama de “ponto de referência para a política econômica brasileira”. Taschetto disse que toda a agenda econômica do governo depende do ministro e alertou que sua saída provocaria um “colapso total”.

A pressão sobre o ministro já está aumentando à medida que Bolsonaro fica impaciente com a recuperação vacilante e com a falta de fundos disponíveis para investimento público, de acordo com um membro de sua equipe que pediu anonimato para falar livremente. A resposta de Guedes, segundo a pessoa, é que os resultados estão começando a aparecer e que agosto – quando um índice de atividade econômica do banco central subiu apenas 0,07% em relação ao mês anterior – pode ter sido o ponto mais baixo.

Por enquanto, Bolsonaro continua, em suas próprias palavras, “100%” comprometido com seu ministro.

Se Guedes não tem escassez de fãs nos mercados financeiros, no Congresso ele tem muito menos amigos, e não apenas porque sua filosofia econômica representa uma ruptura acentuada com as tradições estatistas brasileiras.

Seu estilo otimista e abrasivo tende a atrapalhar os legisladores da maneira errada, e em uma audiência no Congresso ele quase brigou com um deputado que o acusava de ser fácil com os ricos e duro com os pobres.

Ocasionalmente, o ministro também tende a correr à frente de si mesmo. Ele começou o ano prometendo eliminar o déficit público primário, que então representava quase 1,6% do produto interno bruto. Esse déficit, que exclui pagamentos de juros, diminuiu apenas modestamente desde então, para quase 1,4% do PIB.

Problemas fiscais

Um dos pênaltis mais públicos entre o presidente e seu chamado ‘super ministro’ seguiu a proposta de Guedes de introduzir um imposto sobre transações financeiras como forma de cortar impostos em outros lugares. Mas esse imposto tem uma história longa e infame no Brasil e Bolsonaro foi rápido em descartá-lo categoricamente.

O desacordo adiou a introdução da proposta geral de reforma tributária do governo – a segunda medida econômica mais importante do governo Bolsonaro após a reforma previdenciária.

Na ausência de um plano executivo, o Senado e a Câmara já estão debatendo seus próprios planos de reforma tributária, deixando Guedes e sua equipe fora dos holofotes.

Outra área política importante – o limite constitucional para gastos públicos – também se tornou um ponto de discórdia.

O presidente sinalizou repetidamente sua frustração com a regra que muitos investidores consideram uma verificação importante da política fiscal frouxa.

Alarmado, Guedes ligou para Bolsonaro para dizer que a redução do limite de gastos prejudicaria a imagem do país entre os investidores. Em vez disso, ele argumentou, o presidente deveria apoiar uma idéia de desfazer a alocação de recursos no orçamento federal. Atualmente, mais de 90% dos gastos orçamentários reais de 1,4 trilhão de reais do Brasil são obrigatórios.

Mas, como na reforma tributária, a equipe de Guedes ainda não apresentou uma proposta concreta sobre como reduzir a alocação de dinheiro do governo. A explicação oficial é que seria melhor esperar até depois da aprovação total da reforma da previdência.

Guedes recorreu a uma metáfora testada e comprovada para explicar por que reanimar o leviatã do estado brasileiro é um processo tão doloroso.

“Eles arpoaram uma baleia por 40 anos”, disse ele. “Eles fizeram sangrar até quase morrer. E até agora acabamos de retirar um arpão: pensões”.


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